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Fundação Mo Ibrahim, quer desmistificar a ideia de ameaça à segurança e estabilidade associada às migrações. “Juventude Africana: Empregos ou migração?” tema de debate no encontro deste fim de semana na Costa do Marfim.


Em 2017, mais de metade dos migrantes africanos ficaram no continente e apenas um quarto saíram para a Europa, segundo dados da Fundação Mo Ibrahim, que quer desmistificar a ideia de ameaça à segurança e estabilidade associada às migrações.

Os dados constam de um relatório elaborado pela Fundação Mo Ibrahim, que promove a boa governação em África, e que servirá de base às discussões da iniciativa “Ibrahim Governance Weekend”, que decorre em Abidjan, na Costa do Marfim, no próximo fim de semana (06/07.04).

O relatório, elaborado anualmente como suporte às discussões do fórum, pretende oferecer uma perspetiva africana sobre as migrações, destacando que estas ocorrem sobretudo dentro do continente africano, contrariamente à perceção dos países ocidentais, e são motivadas pela falta de oportunidades de emprego, mais do que por questões de segurança.

Em 2017, dos 36,3 milhões de migrantes africanos registados, 25,7% viajaram para a Europa, 12,2% para a Ásia e 53,4% permaneceram em África, destaca o estudo.

Mo Ibrahim (picture-alliance/ dpa)

Mo Ibrahim

Se por um lado, 90% dos migrantes do norte de África foram para a Europa ou Ásia, 70,3% dos da África subsaariana saíram para outro país dentro do continente.

A União Europeia acolhe 9,1 milhões de migrantes africanos, 5,1 milhões do Norte de África e 4 milhões da África subsaariana.

A França recebeu a maior percentagem de migrantes africanos (10,5%), mais do que qualquer país de África.

No continente africano, a África do Sul foi o país que recebeu a maior percentagem de migrantes (6,1%), seguido da Costa do Marfim (5,8%) e Uganda (4,4%).

A Ásia é o segundo maior destino fora de África, acolhendo 4,4 milhões de migrantes, na sua larga maioria trabalhadores temporários do Egito e da África Ocidental a viverem nos países do Golfo e na Jordânia.

Maioritariamente jovens e com formação

Os migrantes africanos são maioritariamente jovens e com formação e 80% são movidos pela expetativa de melhores perspetivas económicas e sociais.

A insegurança não é o principal fator nas migrações, com os refugiados a representarem 20% do total de migrantes e a ficaram na sua grande maioria (90%) no continente.

O documento aponta, por outro lado, que se tivessem oportunidade mais pessoas mudariam de país, e quando questionados sobre o destino, 34% de inquiridos de 34 países africanos responderam que ficariam no continente, enquanto 48,4% asseguraram que viajariam para a Europa ou para a América do Norte.

Kofi Annan UN Friedensbotschafter 1993 (Getty Images/AFP/H. Zaourar)

Kofi Annan

O evento de três dias reúne, numa capital africana a cada ano, líderes políticos e empresários, representantes da sociedade civil, instituições regionais e multilaterais, bem como os principais parceiros internacionais de África “para debaterem um tema crucial para o continente”, segundo a organização.

Homenagem a Kofi Annan

Este ano, o encontro pretende homenagear o legado do antigo secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan, falecido em 2018, e é dedicado aos desafios e oportunidades das migrações e à sua relação com as expetativas de emprego e mobilidade dos jovens africanos.

“Juventude Africana: Empregos ou migração?” é a proposta para a discussão que pretende, desde logo, reposicionar o debate sobre as migrações, desmistificando alguns dos aspetos e apresentando a perspetiva africana, segundo a organização.

A ex-Presidente da Libéria e prémio Nobel da Paz, Ellen Johnson Sirleaf, o músico e ativista irlandês Bono e os antigos Presidentes moçambicano Joaquim Chissano e de Cabo Verde, Pedro Pires, são alguns dos convidados.

Fórum Nova Geração

O evento inclui, além do Fórum Mo Ibrahim, o Fórum Nova Geração, um encontro de líderes emergentes e jovens profissionais.

A fundação foi criada em 2006 pelo empresário de origem sudanesa Mo Ibrahim para promover a boa governação e a liderança em África.

Pedro Pires (DW/A. Cascais)

Pedro Pires

Anualmente, a fundação publica um índice que avalia a governação nos países africanos e atribui o Prémio Mo Ibrahim para a boa governação, com o qual já foram distinguidos os antigos Presidentes de Moçambique e Cabo Verde, Joaquim Chissano (2007) e Pedro Pires (2011), respetivamente. Em 2017, o prémio, que tem o valor de 5 milhões de dólares, foi entregue à ex-Presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf.

Mais de metade da população jovem mundial em 2100

África deverá concentrar em 2100 quase metade da população jovem mundial, 1,3 mil milhões de jovens qualificados, aos quais o crescimento económico do continente deverá conseguir responder com empregos ou perspetivas de mobilidade.

Os dados constam do relatório elaborado pela Fundação Mo Ibrahim e que serve de base ao debate da iniciativa “Ibrahim Governance Weekend”, que decorre em Abidjan, na Costa do Marfim.

Apesar de África manter taxas de crescimento económico “impressionantes”, aponta o documento, a expansão da economia está a perder terreno para o crescimento demográfico e tem-se mostrado incapaz de criar empregos.

Mosambik Ex-Präsident Joaquim Chissano (Getty Images/AFP/Seyllou)

Joaquim Chissano

Em 2019, o Produto Interno Bruto (PIB) de todo o continente africano é inferior ao do Reino Unido para uma população 20 vezes superior.

Entre 2019 e 2100 espera-se que a população jovem africana passe dos atuais 447,1 milhões para 1,3 mil milhões de pessoas (181,4%), enquanto os jovens europeus deverão diminuir 21,4% e os asiáticos 27,7%.

A população jovem de África deverá ser duas vezes a população total da Europa (653,3 milhões) e quase metade da população jovem de todo o mundo (46,3%).

Perspetivas de emprego

O relatório estima que 30 milhões de jovens entrem no mercado de trabalho em África em 2030 e que, apenas na África subsaariana, sejam necessários 18 milhões de novos empregos, contra os três milhões gerados atualmente, para absorver esta massa laboral.

O emprego é a principal necessidade apontada pela atual geração de jovens africanos, que têm maiores níveis de educação, melhor saúde e estão mais conectados com o mundo, mas com níveis académicos ainda longe de outras regiões e com uma “ligação muito frágil” entre níveis mais altos de educação e melhores perspetivas de emprego.

Afrikanische Union Logo

Foto ilustrativa: União Africana

Por outro lado, é assinalado no estudo que o desfasamento entre a educação e formação e as necessidades dos empregadores é pior em África do que no resto do mundo, contribuindo para que pelo menos 16 milhões de jovens africanos estejam no desemprego, sobretudo nas zonas urbanas.

O desemprego é considerado pelos jovens africanos como o seu maior problema e mais de 40% consideram a sua situação atual “muito” ou “bastante” má.

Ultrapassado e pouco lucrativo

O setor agrícola representa 60% dos empregos em África e um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do continente, mas a maioria dos jovens encara o setor como ultrapassado e pouco lucrativo.

Os dados compilados no relatório mostram igualmente um divórcio entre os jovens e a política, com pelo menos 75% dos jovens do Egito, Marrocos, Gana, Nigéria e África do Sul a considerarem que os governos não se importam com as suas necessidades.

A diferença média de idades entre a população africana e os líderes dos seus governos é de cerca de 45 anos.

Perto de 60% da população africana tem atualmente menos de 25 anos e mais de um terço entre 15 e 34 anos.